Médicos qualificados, assim como religiosos de boa fé, estão preocupados com
notícias que alardeiam curas milagrosas sem o suporte da medicina com base
científica. No epicentro dessa discussão, para citar um personagem com
relevância midiática recente, destaca-se o médium espírita João de Deus. Em
desalinho com que pregam os discípulos de Alan Kardec, ele se enrasca em
arroubos de pop star divulgando tratamento espiritual diferenciado ao
ex-presidente Lula.
Trata-se de uma xaropada de
erros em dose dupla. Primeiro que ninguém deve acreditar que forças espirituais
são capazes de substituir a medicina que cuida de assuntos terrenos. Quando
muito, pode se transformar num poderoso elixir de suporte adicional capaz de
contribuir no fluxo de recuperação do enfermo. Assim como técnicas do yoga,
reiki, psicologia transpessoal, meditação e outras. Segundo que os desígnios de
Deus, na verdadeira fé que salva, não fazem distinção entre seus filhos. O
tratamento privilegiado a Lula nada significa se ele não tiver méritos para
receber as dádivas. Incluindo humildade, paciência e resignação.
Os defensores do já famoso intermediário entre os vivos e alma dos mortos vão
afirmar – em comprovado embasamento – que ele não procura benesses pessoais,
não recebe honorários e nada consta que visa lucros pessoais em suas exaustivas
atividades. No entanto, isso segundo normas prescritas na cartilha do ícone
Chico Xavier, João está sorvendo o néctar que adoça as celebridades.
Nesse contexto entra em cena um perigoso endeusamento. Ele deixa de ser mero
instrumento para se apresentar como causa de benéficos efeitos que não lhe
pertencem. A não ser cristo, filho de Deus, não acredito em homem algum capaz
de fazer milagres. Seja ele um pastor evangélico, budista, espírita ou membro
de qualquer outra denominação.
A ninguém deve ser aconselhado deixar remédios, tratamentos hospitalares,
quimioterapia e cuidados médicos para se entregar a quem promete salvação sem o
auxílio desses recursos. Assim como nenhum cristão deve dispensar o auxílio da
fé, com ou sem ajuda de quem oferece sincera colaboração, acreditando que não
necessita da generosidade de Deus. Separadas, essas duas forças são incapazes.
É sempre bom lembrar.