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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Vá te Qatar! Eu recomendo.

A cidade de Doha, capital do Qatar, é um perfeito oásis versão século 21, com direito a sofisticação tecnológica, incríveis concepções arquitetônicas e luxo arrojado. A sala de espera na ala executiva do aeroporto possui dois restaurantes cinco estrelas, clínica médica de alto nível, sala especial para crianças, internet grátis, confortáveis chuveiros de água quente com termostato especial, auxílio para idosos e iguarias gastronômicas que se encontram apenas nos mais requintados redutos europeus. Ao sair desse fausto, o turista pode pegar um táxi Jaguar, Mercedes ou Toyota Camry e entrar no País das Maravilhas. Evidente que é necessário ter uma boa economia em dólares para bancar a conta.

Construída com “petrodólares”, que jorram fácil, a cidade se ergue como uma jóia incrustada no deserto. Os prédios se erguem como grifes da arquitetura. Idealizados e construídos por nomes famosos do circuito internacional, realizam um competitivo bailado entre as dunas de areias límpidas. Tudo é superlativo. A iluminação noturna compete com o brilho do luar. Os arranha-céus, idealizados em vidros multicoloridos, competem com a resplandecência do sol.

Em Doha, hotéis cinco estrelas exaltam um novo conceito a essa designação. O Grand Hyat, no qual nos hospedamos por feliz indicação da especialista Margareth Custódio da ATAN Turismo, é de uma suntuosidade digna da lendária Mil e Uma Noites. O valor é abaixo de acomodações menos grandiosas encasteladas no nordeste brasileiro. Ou seja: o conforto e o supérfluo valem cada tostão que se investe em férias de alto nível.

Apenas a estadia num desses recantos – existem dezenas similares ao que escolhi – vale uma viagem. São cinco restaurantes impecáveis, café da manhã com mais de 70 opções realizadas no estilo cozinha interativa, dois bares, uma soberba confeitaria e um núcleo que serve cafés de todas as partes do planeta.

As duas saunas, a piscina olímpica e o SPA rejuvenescedor exageram nos mimos aos clientes. São oferecidos roupões e toalhas de linho egípcio, cremes das melhores linhas de cosméticos da França, pentes de marfim, água dos Alpes, sucos, frutas frescas importadas, cabines individuais, sendo que todo o aquecimento é mantido por um sistema especial computadorizado.

Nem precisa dizer que os quartos são dignos da realeza. O que mais impressiona – além das camas super king size, travesseiros e edredom acolchoados com pena de ganso – é o refinamento nos detalhes. Os jornais, entregues rigorosamente no horário indicado, chegam numa sacola estilizada. Tudo o que é oferecido nas dependências – já incluso na tarifa – é de uma qualidade irretocável. Exemplo: xampu, sabão, creme rinse, escova de dentes e etc. São produzidos pelas marcas de maior prestígio no mercado.

Não sendo acostumado com tamanho aparato – meu caso – fica-se na dúvida se os chinelos de veludo são brindes, podendo levá-los. Mais do que isso: são descartáveis. O serviço de quarto impressiona até os mais ricos. Em menos de 15 minutos sua refeição está à mesa, com idêntica qualidade e desempenho do à la carte no restaurante. As portas enormes, pesadas e de madeira nobre permitem a entrada de um carrinho com uma espécie de forno que mantém a temperatura ideal dos pratos.

Pois bem, com tudo isso nem dá vontade de sair do hotel. Seria um erro. Doha possui um tradicional e exótico mercado com valores baixos, empresas que propiciam a aventura de um safári no deserto, museus interessantes, visitas a criações de cavalos puro sangue e shopping centers de cair o queixo.

Vale dizer que todo esse encanto se qualifica à beira-mar. Está certo que não existem ondas e a água é fria pra cachorro. Entretanto, no mês de dezembro, o clima é extremamente agradável, entre 24° e 26°C, permitindo que se tome banho de sol sem muitos cuidados. Fica aqui a dica: se alguém mandar você ir se catar, mude o “c” pelo “Q” e aceite. Eu indico.


Rosenwal Ferreira é Jornalista e Publicitário

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

IMPERDÍVEL!

Lições de turismo na Tailândia

Pérola do turismo internacional: a Tailândia está para Índia como o Canadá para os Estados Unidos. Explica-se: o país possui todas as qualidades da terra de Mahatma Gandhi e nenhum de seus defeitos. É uma nação com alto grau de maturidade espiritual, leveza no cotidiano, uma hospitalidade que permeia todos os gestos, clima magnífico e paisagens de tirar o fôlego. Ao contrário da Índia, a alimentação é de excepcional qualidade, a limpeza das ruas impressiona os visitantes, a água é saudável e as atrações exalam perfume. Além de tudo isso, o local paradisíaco oferece um leque de artesanatos e roupas de boa qualidade a preços inacreditáveis. Para se ter um exemplo, é possível adquirir um vestido que faria bonito em qualquer boutique personalizada por apenas R$ 30,00.

O que mais interessa, e que pode ser aproveitado pelos responsáveis pela área de turismo no Brasil e no Estado de Goiás, é o foco na profissionalização do setor. Todos os detalhes são voltados para agradar os visitantes. Os aeroportos das cidades litorâneas – charmosos, cheios de flores e com arquitetura diferenciada – oferecem lanches de graça aos passageiros. Os sorrisos acontecem com generosidade. As exigências, minimizadas ao máximo; as informações são tão precisas que todos se sentem em casa.

É possível perceber, com muita clareza, que existe uma perfeita simbiose entre o governo e a iniciativa privada. Os estrangeiros recebem um rigoroso suporte. Tanto que o maior temor de um tailandês é que o viajante procure uma autoridade, principalmente um policial, para reclamar que está sendo lesado ou incomodado. As sanções são imediatas e tratadas como um gesto que lesa a economia.

Outro importante fator, e que pesa no retorno de milhões de visitantes, é que não existe exploração nos redutos mais importantes. Os preços obedecem a padrões com variações mínimas e quase imperceptíveis. Isso vale tanto para atrações de grande procura quanto sítios menos valorizados. Isso se chama respeito. E foi idealizado como proposta do Estado Tailandês.

Atrevo-me a indicar, com a experiência de quem já se aventurou em quase 70 nações em todos os continentes, a Tailândia como ícone de uma terra capaz de agradar os mais exigentes. É claro que muitos vão apontar a lacuna de que eles, os hospitaleiros e honestos tailandeses, não entendem quase nada de inglês. É verdade, no território em que domina o Siamês, quando o cidadão afirma “yes” não quer dizer absolutamente nada. Na dúvida, e sempre dispostos a agradar o turista, eles dizem “yes” para tudo. O melhor é que, no final, tudo se resolve e termina numa boa gargalhada. Definitivamente, não dá para ser infeliz numa monarquia na qual o turista é o rei.

Rosenwal Ferreira é Jornalista e Publicitário

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

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Lições no Asharam da Amma


Líder espiritual de milhões de pessoas ao redor do globo, a indiana Amma mantém templos, locais sagrados, orfanatos, casas que oferecem sopa, hospitais de medicina complementar e outras atividades filantrópicas que salvam almas e vidas humanas. O seu Asharam no sul da Índia se presta a uma excelente lição de humildade e cooperação. Ali, todos os serviços, com raras exceções, são realizados pelos próprios hóspedes. Ao chegar ao local, os visitantes são recebidos com sorrisos amigáveis, gestos de louvor, um colchonete rudimentar, um balde, uma caneca, dois travesseiros ordinários, vassoura e rodo. Esse conjunto de peças é o necessário para sobreviver num quarto limpo e desprovido de móveis.

Os mais exigentes podem conseguir um lençol de chitão alugado por três reais. Toalhas são desnecessárias porque o corpo seca segundos depois que se despeja a caneca de água no corpo. Água quente e chuveiro no estilo ocidental é uma regalia dispensável. Por incrível que pareça, esse ambiente monástico, onde ecoam o tempo todo cânticos e mantras, oferece uma sensação de agradável conforto. O aparente exagero na simplicidade é a primeira lição recebida.

Com todo o complexo controlado por computador, os administradores sabem exatamente quanto tempo os estrangeiros vão ficar alojados. No primeiro dia, eu e minha esposa Kétina fomos poupados das atividades voluntárias. Apenas cumprimos o puxado horário de acordar as 4h30 da madrugada, indo rezar em templos separados repetindo mil frases no complicado palavreado de louvor aos deuses.

No dia seguinte, um bilhete deixado na porta do quarto demandava nossa presença no escritório que orienta a “ceva’’. Fomos atendidos por um amável jovem suíço. Ao seu lado um quadro, escrito em inglês, com os seguintes dizeres: “Você deseja realizar serviços que são necessários ou apenas para atender seus interesses?”. Evidente que o recado surtia efeito. Ambos concordamos em realizar o que fosse necessário.

Fomos indicados a três funções distintas: primeiro, recebemos a tarefa de limpar dois quartos que acomodam quatro pessoas no anexo D destinado às famílias indianas. As instruções, passo a passo, davam ênfase na limpeza dos banheiros. No primeiro dos aposentos foi até fácil. Torcemos um pouco o nariz para as péssimas condições do vaso sanitário, mas tudo ficou em ordem em cerca de uma hora. No segundo local, certamente ocupado por gente mais porca do que o costume, foi um duro exercício de tapar nariz e segurar o escovão ao mesmo tempo. Na base da esperteza, deixei o banheiro por conta da minha mulher. Duas horas depois, tarefa cumprida.

No segundo dia nos foi indicado auxiliar na imensa cozinha na realização de massas de pizza. Não fossem o calor desértico, o odor do indiano e os cheiros fortes aos quais não estamos acostumados teria sido moleza. Tiramos de letra. A última tarefa, com certeza de propósito, foi para jogar na lona qualquer resquício de arrogância ou senso de classe social. Generosamente, fomos selecionados para a organização do lixão matinal.

Na essência, e junto com 12 voluntários de vários países, o serviço era dos mais simples: separar e ensacar todo o entulho colhido na tarde anterior. São toneladas de lixo jogados num cômodo, com direito a toda a fedentina, o caos, as baratas, fuligem e tranqueira. Só de olhar – e saber que o trabalho era deixar tudo limpo e acomodado para ser colhido – dava náuseas e vertigem. Um musculoso garotão holandês, chocado e assustado, começou a sentir tonteira. Foi orientado a respirar fundo. Respirar fundo!? Estais brincando...

Munidos de luvas em farrapos, aventais rústicos e espírito de equipe, fomos à luta. Por incrível que pareça, cerca de três horas depois, a montanha de detritos estava separada entre plásticos, vidros, papel, lixo orgânico e tranqueira sem definição. Imundos, suados, com o corpo dolorido e coçando, os participantes se abraçaram usando apenas sorriso e olhar orgulhosos. Sobrevivemos a uma experiência capaz de mudar concepções e provocar reflexões transcendentais. Para minha surpresa, muitos se dedicam ao nauseabundo trabalho por vários meses.

Ao lado das meditações, ensinamentos de boa conduta moral, da propagação da ampla ética humana, a ceva é a maior lição no Asharam da Amma. Na limpeza das latrinas, no sufoco das cozinhas, nos infames odores típicos de qualquer lixão, os seres humanos são todos iguais. A sensação de superioridade – tão nefasta ao progresso espiritual – é apenas uma ilusão que deve ser reavaliada. Evidente que ninguém vai sair do local e mudar de profissão. Entretanto, certamente que será tocado a valorizar e agradecer os prazeres de uma boa vida, deixando as agruras do cotidiano para outros irmãos realizarem. Contudo, tendo uma boa amostra de como certas ocupações são difíceis.

Rosenwal Ferreira é Jornalista e Publicitário

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

ACOMPANHE

Baba que Sai Baba

Depois de uma bem sucedida peregrinação nos ares suaves que embalam as matas virgens, o Ganges e o sopro do Himalaia, eu e minha doce esposa Kétina decidimos trocar as batas multicoloridas pelo branco que domina os Ashrams do sul da Índia. Por indicação de amigos – os quais passei a questionar a sanidade mental –, fomos direto do abafado aeroporto de Tiruvananthapuram para a cidade de Puttaparthi, local do templo sagrado e das acomodações do líder Sai Baba. O gigantesco espaço é um misto de manicômio, centro de concentração e aeroporto em tempo de guerra. Pessoas vagam como zumbis em meio à poeira. Em todos os recantos permeia a paranóia de um atentado (com direito a revistas rigorosas, aparelhos de raio-x e perguntas ríspidas).

Quem possui estômago, ou deseja purgar os pecados em processo de autoflagelação, entra nesse calabouço dos mantras para esquecer que existe o lado de fora dos portões. É ali que se aglutina mixórdia mercantilista, sujeira, exploração e fanatismo. Sequer nas latrinas improvisadas é possível fugir da figura de Sai Baba. Sua foto está grudada em todos os táxis, apartamentos dos hotéis, canetas, mamadeiras dos nenês, espelhos, copos e até nos baldes que se coleta água imunda. Num misto de frustração e desespero, literalmente fugimos do local.

Por um erro de tradução, fizemos o mais bizarro de todos os percursos. Fomos de táxi para Kanchipuram, próximo a Chennai, imaginando que chegaríamos ao aconchego da Amma, que fica a mais de mil quilômetros de distância. Foi de uma excelência bíblica. As cidades que vimos parecem sair do umbral descrito pelos espíritas ou do inferno de Dante. Nas ruas fétidas e apinhadas de gente, impera o caos. Tudo é uma indescritível desordem. Ratazanas, baratas, imundice crônica, esgoto e mosquitos se acomodam ao lado de uma limpa Pizza Hut, plantada pelo capitalismo do Tio Sam como se fosse um oásis no epicentro do inferno.

Em meio a esse cenário de balburdia, inferneira de buzinas e visível tormento, recebemos uma edificante lição de humildade e fé indiana. Os rapazes que nos atenderam na escola da Amma, (que não tem nada a ver com o paradisíaco Ashrama que encontramos depois) quase à meia noite, se recusaram a aceitar gorjetas. Com suas roupas simples – trapos para os padrões ocidentais –, seus dentes estragados e a pele envelhecida precocemente pelo sofrimento cotidiano, eram voluntários a atender de graça turistas perdidos. Por míseros onze reais, fomos acalentados num quarto limpo com banho quente. Uma regalia que milhões de indianos morrem sem usufruir.

No dia seguinte, com uma experiência de moldar a alma, ouvimos em reflexivo silêncio as orações às seis horas da manhã. No aeroporto de Chennai, ainda em transe com a lição de sofrimento de um povo que preserva a esperança e enxerga a penúria como uma dádiva dos deuses, adquirimos passagens que nos levaram aos encantos de Amritapuri, local em que fomos embalados nos braços da Amma, que, avisada que éramos brasileiros, sussurrou melodicamente em nossos ouvidos: “Meu amiguinho, meu amiguinho...”

Ao contrário de Sai Baba, com seu mercantilismo explícito, o recanto de Amma é apaixonante. As acomodações simples, mas de pleno conforto, se erguem entre as ondas do mar e o rio adornado por uma floresta de coqueiros. A noite, os cânticos nos templos se misturam com trinados de pássaros exóticos e sons de elefantes que ecoam na planície. Tudo é amor e plenitude. Impera uma paz que conforta e qualifica os sentimentos. A própria Amma lidera as meditações ao entardecer, realizadas ao som das ondas do oceano, momento em que presenciei um dos mais belos pôr do sol de minha existência. Ato que se revela como um revigorante elixir. Definitivamente, tudo vale a pena e é uma lição neste exótico, excêntrico e fluídico país.


Rosenwal Ferreira é Jornalista e Publicitário